Os Um e Os Outros

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foto Cacá Bernardes

O espetáculo estreou em setembro de 2019 no teatro do SESC Pompeia e depois realizou uma temporada no TUSP em outubro. Antes disso, fez apresentações em junho na Terra Indígena Tenondé-Porã, em Parelheiros, sul da cidade de São Paulo, em abril realizou uma abertura de processo no Museu do Ipiranga, em parceria com o SESC Ipiranga, chamada “Dependência e Morte na Terra do Pau Brasil”.

Dirigida por Cibele Forjaz, numa parceria entre a Cia. Livre e a Cia. Oito Nova Dança, a peça se baseia na obra “Horácios e Curiácios”, de Bertolt Brecht, que por sua vez se inspirou em uma guerra ocorrida na Roma Antiga para escrever essa peça em 1933: uma obra que investiga modos de resistência à chamada “época da contrarrevolução”, instaurada com a ascensão e consolidação da Alemanha Nazista. A partir dessa “peça de aprendizagem”, como a define o próprio autor, “Os Um e Os Outros” refletia sobre a questão dos povos ameríndios e suas lutas históricas no Brasil.

Na transcriação cênica concebida por Cibele Forjaz, os Curiácios são o povo dos Um, que acredita na universalidade da sua cultura, enquanto os Horácios são os Outros, ou todos aqueles que defendem a diversidade dos modos de existência.

Os Curiácios invadem a terra dos Horácios para roubar seus campos e minas. Frente à ameaça de perderem tudo aquilo de que necessitam para viver, os Horácios decidem resistir. Em três batalhas – dos arqueiros, dos lanceiros e dos escudeiros – o autor aborda diferentes estratégias de luta, refletindo sobre formas de resistência ao avanço do totalitarismo no mundo.

Para tecer esse diálogo entre a história escrita por Brecht e a luta dos povos ameríndios no Brasil contemporâneo, as duas companhias contaram com a participação de artistas colaboradores e a presença especial de convidados do povo Guarani M’Bya – moradores da Terra Indígena Tenondé-Porã em Parelheiros, multiplicando os pontos de vista da encenação num espetáculo que mescla teatro, música, dança e projeção de imagens.

A narrativa em cena mantém como espinha dorsal o texto de Brecht, mas a encenação justapõe a este material mensagens, documentos, relatos e imagens que apresentam uma guerra em curso hoje no Brasil: a luta dos povos originários pelo reconhecimento de seus territórios e pelo respeito aos seus modos de vida.

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A fábula de Brecht e o Brasil contemporâneo

Com o objetivo de discutir as relações entre os povos indígenas e não-indígenas, o espetáculo faz uma justaposição entre o texto original e a nossa situação atual, permeada por uma série de conflitos em torno do pertencimento, valor e destino da terra. Essa disputa, que envolve a demarcação de terras, dilemas sobre a preservação ambiental, projetos político-econômicos de expansão agropecuária e de exploração de jazidas – temas cada vez mais acirrados no país -, é trazida para a cena por meio de farto material iconográfico, pesquisado na imprensa nacional e internacional, em instituições e publicações variadas. Enriquecendo esse precioso recorte documental, a peça é plataforma para mensagens em vídeo dirigidas aos “caraí” (ou, os homens e mulheres não-indígenas) e seus líderes, enviadas pelos líderes e viventes da região do Xingu.

A pesquisa do espetáculo, que envolveu os dois grupos artísticos paulistanos, incluiu a visita da Cia Livre a regiões de disputa ao longo do último ano, possibilitando a convivência com diversas culturas, povos e comunidades indígenas. Essa ida a campo, a fim de trazer o teatro mais perto da experiência viva, era objetivo da Cia Livre desde a montagem de Vem Vai, o caminho dos mortos. Também vinha sendo realizada pela Cia. Oito Nova Dança em criações anteriores, tais como Xapiri, Xapiripê, lá onde a gente dançava sobre espelhos (criada em parceria com a Cia Livre) e Esquiva.

Assim como o texto de Brecht apontava para conflitos pela supremacia na exploração das fontes naturais por meio das barragens, pastos e garimpos, o Brasil dos tempos de hoje não oferece contexto muito diverso daquele ficcionalizado em 1933. O que se vê é a reprodução de violências motivadas por mais um ciclo de exploração, mudando apenas os agentes interessados nesses recursos naturais e a desigualdade com que ignoram direitos, para atingirem o lucro visado.

Neste sentido, a Cia Livre se refere, sobretudo, à resistência. Também propõe uma reflexão sobre como o mundo pode ser transformado e de que maneira as ações que podemos tomar nos dias de hoje são capazes de alterar o destino de exploração, expropriação e destruição que se avista no futuro próximo.

Como diz o xamã Ianomâmi Davi Kopenawa, em entrevista ao etnólogo Bruce Albert no livro A queda do céu, que relata o fim do mundo se os brancos continuarem agindo como fazem hoje em relação à natureza e à vida na Terra, “o céu cairá sobre as nossas cabeças”. Sobre este assunto, Kopenawa explica que uma vez que a harmonia na Terra é quebrada, o céu cair

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Ficha técnica

JOGADORXS:

Adriano Salhab

Cibele Forjaz

Fernanda Haucke

Fredy Allan

Gisele Calazans

Lu Favoreto

Lucia Romano

Marcos Damigo

Roberto Alencar

Vanessa Medeiros

Contra regra em cena: Jackson Santos

Músicos em cena: Adriano Salhab, Gabriel Máximo e Ivan Garro

Composições de trilha origina, Direção Musical e Arranjos: Adriano Salhab e Guilherme Calzavara

Desenho de som e Sonoplastia: Ivan Garro

Direção de Arte: Cla Mor, Marília de Oliveira Cavalheiro e Valentina Soares

Arquitetura cênica e Objetos: Marília de Oliveira Cavalheiro

Figurino e Objetos: Valentina Soares

Vídeo: Annick Matalon, Cla Mor, Fábio Riff, Lucas Brandão e Mariana Caldas

Operação de vídeo: Cla Mor

Câmera em cena: Annick Matalon

Vídeo Mapping: Fábio Riff e Mariana Caldas | Vapor 324

Luz: Cibele Forjaz e Matheus Brant

Operação de luz: Matheus Brant e Nara Zocher

Identidade Visual e Projeto Gráfico: Julia Valiengo

Assistência de Direção: Gabriel Máximo e Jackson Santos

Preparação e direção vocal: Lucia Gayotto

Preparação corporal e Direção de movimento: Lu Favoreto

Assessoria de Imprensa: Márcia Marques | Canal Aberto

Produtoras: Bia Fonseca e Iza Marie Miceli | Nós 2 Produtoras Associadas

Direção Geral e Encenação: Cibele Forjaz

Coro Convidado do povo Guarani M’Bya [em revezamento]:

Jerá Poty Mirī | Jerá Guarani

Tatarndy Germano

Karai Negão

Karai Tiago

Poty Priscila

Karai Tataendy Ricardo